
Sam Hodgson / The New York Times
Com uma sacola de papel pardo cheia de garrafas de saquê nos braços, uma desapontada Lauren Graham parou diante do Yakitori Tora, um restaurante japonês no SoHo. As janelas estavam escuras, as mesas vazias e as cadeiras, sumidas.
A refeição no restaurante deveria ser a última parada do trio de programas da noite: primeiro, uma visita à Sakaya, uma loja de saquê na East Ninth Street; depois, compras no mercado Sunrise Mart, no East Village; e, por fim, espetinhos de carne no Yakitori Tora.
Lauren, de 49 anos, mais famosa por seu papel na TV como Lorelai Gilmore em Gilmore Girls, havia planejado a noite inteira. Seu amor por “qualquer coisa” japonesa, embora possa surpreender os fãs, está longe de ser aleatório. Os avós de Lauren foram enviados ao Japão como missionários depois da Segunda Guerra Mundial, e sua mãe, que morreu em 2005, falava japonês fluentemente e trabalhou como compradora de uma loja de departamentos no Japão. A própria Lauren, que nasceu em Honolulu, morou brevemente no Japão quando era bebê.
Infelizmente, seus planos de compartilhar a cultura que ama foram frustrados naquela noite de outubro. Até a mãe mais descolada da televisão, que volta na sexta-feira com quatro episódios de 90 minutos na Netflix, pouco pode fazer diante de uma porta trancada.
A não ser fazer você rir.
“Deixa eu te contar sobre o meu amor pelo México”, disse Lauren, com humor seco.
Em vez disso, ela pegou o celular para ligar para a meia-irmã, Shade Grant, e bolar um novo plano. Decidiram ir ao Japonica, na University Place, uma rua que Lauren frequentava aos 17 anos, quando era caloura de artes cênicas na NYU.
“Foi bem intimidador”, contou. Ela aguentou um ano, mas decidiu se transferir para o Barnard College para estudar Inglês, e depois fez mestrado em Belas Artes na Southern Methodist University, em 1992. Mas a grande chance só veio vários anos depois, quando foi escalada para Gilmore Girls, em 2000.
Lauren recordou o momento, nos anos 1970, em que soube que queria ser atriz. “Meu pai e eu fomos assistir a Annie no Kennedy Center, e eu ganhei uma camiseta de Annie“, disse. “Um dia, numa loja, alguém me perguntou se eu fazia parte do elenco de Annie, e eu disse que sim, porque eu queria muito estar no elenco de Annie. Então meu primeiro papel foi ‘pessoa que fazia parte do elenco de Annie‘. Acho que me saí muito bem.”

Sam Hodgson / The New York Times
No Japonica, Lauren se acomodou em uma mesa ao lado de Shade, de 34 anos. Avaliando os looks da noite (as duas usavam blazers pretos sobre camisetas), Lauren comentou: “Eu diria que a gente se veste meio como a nossa mãe.”
“Ela era pintora, cantora, modelo, estudou em escola de artes, tinha interesse por escrita”, disse Lauren sobre a mãe.
Uma ambição artística semelhante levou Lauren a diversos projetos criativos, incluindo cinco anos na série Parenthood (onde conheceu seu parceiro, o ator Peter Krause), um romance publicado em 2014 e uma coletânea de ensaios autobiográficos, Falando o Mais Rápido Que Posso, com lançamento previsto para terça-feira.
Depois de examinar o cardápio, Lauren escolheu rapidamente uma marca de saquê. “Não é o mais caro”, disse. “E tem flocos de ouro.”

Sam Hodgson / The New York Times
O momento lembrou a espirituosa Lorelai, personagem que Lauren não interpretava havia uma década.
“Quando fizemos a primeira leitura do roteiro, havia tanta energia na sala, e eu estava tão nervosa”, contou.
Desde que ela deu vida pela primeira vez à mãe solo de fala acelerada, a CW substituiu a WB, a Netflix se tornou uma alternativa aos canais a cabo e os iPhones viraram um acessório comum. Esse último ponto não passa despercebido por Lauren, que tem um alter ego avesso à tecnologia chamado Old Lady Jackson, que desaprova televisões em táxis amarelos e celulares nas escolas.
“Nesse mundo de câmeras de celular, você está comendo e pensa: ‘Hmm, mal posso esperar para…'”, disse Lauren, fingindo se perder num devaneio provocado pela comida. “E em algum lugar ali, alguém está tirando uma foto sua para colocar sei lá em qual página”, completou.
Felizmente, isso não a impediu. As irmãs comeram bastante, trocando pratos e brincando uma com a outra. (“Deixa eu só provar um pouquinho”, disse Shade sobre um sashimi de salmão, e Lauren respondeu: “Você não pode provar só uma mordida de sushi. Não faz sentido nenhum”, e largou a peça inteira no prato dela.)
No fim da refeição, Lauren e Shade se despediram de seus pratos e voltaram à conversa fácil de sempre. A garrafa de saquê, pela metade, brilhava entre as duas enquanto Lauren mergulhava naquele que talvez seja o seu papel favorito: o de irmã mais velha descolada.
Artigo originalmente publicado em 22/11/2016, escrito por Valeriya Safronova.
